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Pedagogia : Porque Vale a Pena Seguir a Carreira de Professor?
Enviado por nupro em 05/03/2010 14:21:15 (359 leituras)

O que você vai ser quando crescer? Talvez seja o caso de considerar aquela velha brincadeira de escolinha, de quando você era criança, como uma real possibilidade de carreira. Afinal, ser professor, apesar de muitos preconceitos e de um passado recente bem conturbado, é até bem vantajoso. E deve ficar ainda mais nos próximos anos.

Para início de conversa, todo mundo teve não um, mas vários professores. E, não importa crise, queda do dólar ou modificação dos juros: a profissão vai sempre existir. Vagas não faltam. "Principalmente para professores de ciências como Física, Matemática e Biologia. Mas de forma geral, o mercado está sempre crescendo", aponta Geraldo Diório, superintendente do Sindicato das Escolas Particulares do Estado (Sinepe).
Com o emprego praticamente garantido, dá para se dedicar à faculdade, que pode ser feita de graça ou paga com trabalho, depois da formatura. Mas, mesmo assim, faltam professores mais bem qualificados. Atrair talentos é uma das grandes preocupações das escolas mundo afora, afinal, geralmente são os alunos com menor desempenho que escolhem a carreira docente.
Melhores

Por isso, o secretário estadual de Educação, Haroldo Corrêa, foi conhecer o Teach for America, um programa americano que seleciona os melhores alunos das melhores faculdades para dar aula nas escolas públicas. Eles ficam apenas um tempo, mas o suficiente para melhorar o desempenho dos alunos.
Para o secretário, o principal fator para esse afastamento é a remuneração. "E isso já começamos a mudar, com a implantação dos subsídios. Pagando melhor, e em dia, estamos mudando a imagem da carreira, porque ela precisa ser atrativa para os jovens. Quanto mais gente fizer faculdade, mais chances teremos de selecionar os melhores", aponta.
Nem tudo são maçãs sobre a mesa na vida dos professores, afinal, é preciso domar as ferinhas na sala e ainda passar horas planejando aulas e corrigindo provas. Mas, com tantos incentivos e uma dose de vocação, a carreira de professor tem tudo para voltar a ser valorizada no país.
"Hoje sou uma profissional muito melhor do que há 24 anos, e a nossa realidade exige isso". Eliane Baldan Zani, 43 anos, leciona em escola pública de Cariacica.
Os benefícios da profissão
Seja no setor público ou no privado, no ensino fundamental, no médio ou no superior, há muitas razões para ser professor.

Aposentadoria

Enquanto a maioria das pessoas se aposenta com 30 ou 35 anos de trabalho, os professores encerram a carreira com 25 anos de serviços prestados.

Dois empregos

Com a carga horária média de 25 horas semanais, professores - assim como os médicos -, são os únicos profissionais que podem ter mais de um vínculo empregatício, inclusive no serviço público.

Férias

Além das longas férias, que normalmente vão de dezembro a fevereiro, professores também podem contar com o recesso no meio do ano - são duas semanas.

Plano de carreira

Principalmente no serviço público, o professor que se especializa e se destaca pode mudar de função, virando coordenador ou até diretor escolar. A cada dois ou três anos há um reajuste no salário referente ao tempo de serviço.

Planejamento

Hoje, os professores já sabem quanto vão receber no ano que vem. Isso é comum no serviço público, tanto estadual quanto federal.

Especialização

Um mestrado ou doutorado significam sempre mais dinheiro no final do mês.

Licença

Para fazer qualquer curso, é possível tirar uma licença por tempo indeterminado e ter a vaga garantida quando voltar. Para professores federais a licença é remunerada.

Bônus

Na rede estadual, os professores contam com o maior abono no final do ano. A partir do ano que vem vão ganhar ainda mais, de acordo com o desempenho individual.

Taxas especiais

Quem não é da rede estadual e não ganhou computador, agora tem a oportunidade de obter crédito, a juros mínimos, para comprar material de informática.

Formação

Os benefícios já começam na faculdade. Com mais ofertas de cursos a cada ano, e a possibilidade de pagar o financiamento com o próprio trabalho depois de formado. Vale para quem já é ou pretende ser professor.

Convenções

Pelo acordo entre patrões e empregados, professores da rede particular têm direito a tíquete-alimentação, seguro de vida e até previdência privada, além do salário recebido.

Filhos na escola

Também nas escolas particulares, os filhos dos professores estudam de graça ou pagando um valor bem abaixo do normal.

Ela começou por incentivo da mãe...

Após 24 anos de profissão, Eliane Baldan Zani, 43, resolveu mudar de posição dentro da sala de aula. Se durante a tarde e à noite ela se dedica a passar conhecimentos a seus alunos, pela manhã, entre um plano de aula e a correção de provas, volta a ser estudante, do segundo período de Pedagogia.

Eliane escolheu a profissão por incentivo da mãe, que "achava lindo lecionar", mas durante muito tempo, teve vergonha de apresentar o contracheque. "Já tive até cadastro reprovado em lojas, na época em que havia muitas greves e atraso no pagamento. Agora é uma felicidade ver que eles até fazem propaganda específica para a gente", compara, se referindo ao bônus que recebeu do governo estadual para comprar um computador.

A valorização vai muito além e faz diferença no dia a dia da sala de aula. "Nos últimos anos, fiz muitos cursos para me aperfeiçoar, como um específico para ensino de Matemática e outro de Informática. Com isso, tenho muito mais capacidade de fugir do tradicional, de trazer coisas novas para estimular meus alunos, que, de quebra, acabam aprendendo mais", destaca ela, que trabalha numa escola pública em Cariacica.

...e ela se apaixonou pela profissão.

Paixão fulminante. Assim foi a relação de Grazieli Pissarra Bartolli, 31 anos, com a profissão. "Comecei a fazer faculdade de Letras para melhorar meu desempenho profissional, mas durante o estágio obrigatório me apaixonei por dar aulas", conta a ex-jornalista, que trabalha numa escola pública na Serra.

Apesar do salário um pouco menor na época, a nova profissão trazia outros benefícios. "Além de gostar muito, eu precisava de uma rotina mais organizada, com horários fixos, pois tinha acabado de ter um bebê", aponta Grazieli.

A ascensão também veio rápido. Apenas quatro anos depois de ter sido efetivada - antes ela trabalhava em regime de Designação Temporária (DT) -, Grazieli já foi promovida e hoje é coordenadora da escola onde estudou no ensino médio. "É muito bom ver que hoje tenho mais condições de trabalho do que os professores da minha época. Isso também valoriza o trabalho e me faz sentir realizada", aponta ela, que pensa em fazer cursos para melhorar ainda mais sua atuação.

Fora da sala de aula, Grazieli consegue sentir como a relação professor-aluno é fundamental para garantir a qualidade do aprendizado. "Quando os professores se sentem mais motivados, a turma acompanha e passa a ter gosto em aprender", aponta. A satisfação de Grazieli já contagiou até seus alunos: ela conta que muitos decidiram abraçar a profissão, seguindo os passos da mestra.

"Muitos dos meus alunos saíram daqui e foram fazer licenciatura, dizendo que foram incentivados pela minha postura"
Grazieli Pissarra Bartolli , 31, trabalha na rede pública há 4 anos.
"A gente precisa formar melhor os nossos professores"

Mais do que atrair pessoas para a carreira de professor, é preciso ensiná-los a exercer a profissão. Para a coordenadora pedagógica da Fundação Victor Civita – que desde 1985 apóia e cria projetos para melhorar a qualidade da Educação no Brasil – Regina Scarpa, os atuais currículos não são capazes de formar professores aptos a lidar com o cotidiano das salas de aula. "Modificar e melhorar a formação do professor é o principal caminho para melhorar a percepção do resto da sociedade sobre a profissão e, com isso, atrair estudantes mais capacitados para a carreira", enfatiza.

Por que há tão pouco interesse em virar professor?

Falta valorização social da profissão. E o fato é que tem havido uma queda constante no interesse dos alunos com a carreira do professor. Nós, da Fundação Victor Civita, estamos justamente fazendo uma pesquisa para entender melhor a baixa atratividade dos alunos de nível médio para as carreiras docentes. Mas sabemos que hoje apenas os piores alunos procuram as licenciaturas e cursos de Pedagogia.

Atrair os melhores alunos é o caminho para melhorar a Educação?

O caminho principal é romper com o círculo vicioso, em que professores são formados num curso de Pedagogia que é genérico e que não forma professor. O currículo não é organizado para tornar o professor um profissional do seu ofício, ou seja, um cara que sabe alfabetizar, ensinar Matemática. Um professor tem que saber como é o desenvolvimento infantil para saber ensinar. Como ele não está sendo formado, quando chega à escola encontra dificuldades para dar aula. As redes que investem em formação permanente saem ganhando. Mas quem não tem esse tratamento acaba tendo como resultado o mau desempenho dos alunos, por isso, os professores acabam sendo mal-vistos pela sociedade. Vira um círculo vicioso em que nada vai bem.

Falta respeito pelo professor?

Como em qualquer outra profissão, o que dá respeito e legitimidade é a competência. No Brasil, a gente precisa acabar com esse discurso de que para ser um bom professor basta ter vocação, dom e amor pelas crianças. A profissão docente precisa ser tão profissionalizada quanto as outras. Um bom professor tem que saber coisas que outros profissionais não saibam fazer. Para isso é preciso reformular os currículos dos cursos de Pedagogia, para dar o direito a eles de se formarem como bons profissionais. Quem pretende virar professor precisa saber e acompanhar o desenvolvimento de didáticas adequadas para cada faixa etária, o que não acontece hoje.

Não basta então só estimular a entrada nesses cursos...

Não basta só colocar na faculdade e ficar oferecendo apenas matérias generalistas, como Sociologia da Educação. Essas matérias são importantes, mas sozinhas são ineficientes. Numa pesquisa que fizemos ano passado sobre os currículos, constatamos que apenas 28% da carga horária dos cursos de Pedagogia são destinados à formação específica do professor. É muito pouco.

Muitas redes, inclusive a estadual do Espírito Santo, têm apostado em formação continuada para melhorar o nível dos professores. Isso resolve a questão?

Formação permanente é fundamental. Já que a formação inicial não garantiu esse conteúdo, ela é imprescindível. Mas o próprio ministro da Educação já assumiu que é importante modificar os currículos, e espero que isso aconteça o quanto antes. A gente precisa formar melhor os nossos professores. É uma pena que a carreira seja tão mal-vista, porque o conhecimento tem uma força enorme. Considero um privilégio trabalhar com Educação, pois ela é fundamental na construção de qualquer indivíduo.

Outros benefícios, como bônus para comprar computador, podem ajudar a melhorar a imagem do professor?

Só favorece se não ocupar o lugar da construção de um plano de carreira que preveja uma ascensão, além da previsão de uma remuneração cada vez mais justa. Se for acessório, ótimo. Todo mundo gosta de saber que tem chances de crescimento. Se não há esse tipo de expectativa, a profissão acaba atraindo pessoas mais acomodadas, que se satisfazem apenas com a idéia de ter mais estabilidade no emprego.

O comportamento é o mesmo na rede particular?

Na rede particular, de forma geral, há mais possibilidade de mobilidade, de ir para uma escola que paga mais e oferece condições melhores de trabalho. Muitos professores que se destacam também conseguem virar assessores nas suas áreas de conhecimento, coordenando o trabalho dos demais professores, sendo mais bem remunerados por isso. Noutros casos, e isso também acontece na rede pública, ele vira coordenador pedagógico, como foi o meu caso. Isso dá mais incentivo.

Se todos os professores têm a mesma formação generalista, por que o ensino privado, em geral, é melhor que o público?

Por uma série de questões, principalmente condições de trabalho, acesso a livros e outros materiais. Às vezes, os alunos das escolas públicas não têm acesso a material extra, como uma enciclopédia, ou até internet. Escolas particulares também estão mais bem equipadas e sofrem uma cobrança por resultados que até pouco tempo atrás não havia na escola pública.

Com mestrado e doutorado, remuneração até dobra

Mestrado ou doutorado, para os professores, significa crescimento na carreira, e também na conta bancária. Entre as escolas particulares de ensino fundamental e médio, o aumento é de cerca de 30%, mas entre os professores de ensino superior, pode significar mais do que o dobro do salário.

Um professor novato do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) que tenha doutorado e 40 horas semanais de trabalho, por exemplo, ganha R$ 1.115,00 de salário-base, e outros R$ 1.418,00 de Retribuição por Titulação (RT), referente ao grau atingido, sem contar os outros benefícios, que somam cerca de R$ 1.500,00 ao salário. "Se ele trabalhar em regime de dedicação exclusiva, só a RT chega a R$ 3.200,00", aponta a coordenadora de Desenvolvimento Pessoal do Ifes, Kátia Galvão. Na Ufes e no Ifes, para fazer o curso, o professor ainda pode tirar uma licença e continuar recebendo seu salário.

Na rede estadual, um professor com mestrado e cerca de três anos de atuação, recebe R$ 600,00 a mais do que o salário-base, de R$ 1.474,20, por 25 horas semanais. Se o professor tiver doutorado, o salário inicial é de R$ 2.756,00, ou seja, R$ 1.281,80 a mais do que o piso salarial. Duas vezes por ano, quem concluiu uma especialização pode requerer junto ao governo sua mudança de nível. Só na última semana, 607 professores foram beneficiados no Estado.

Salário R$ 5,8 mil por mês

É o salário de um professor do Ifes, com doutorado, dedicação exclusiva e benefícios.

Plano de carreira garante reajuste a cada três anos

Além da possibilidade de ganhar mais e mudar de função após um mestrado ou doutorado, os professores, na maioria, contam com um detalhado plano de carreira. A cada dois ou três anos, dependendo do local, há um aumento.

Um professor da rede estadual no final de carreira, com doutorado, que tenha aderido ao novo modelo de remuneração, e que entrou recebendo R$ 2.756,00, tem a perspectiva de se aposentar com R$ 8.506,00. Pode ainda ser promovido a coordenador ou se candidatar a diretor. Na rede estadual, pode ganhar, em média R$ 5 mil.

Para o presidente do Sindicato dos Professores das Escolas Particulares do Estado (Sinpro), Jonas Rodrigues de Paula, a mobilidade é maior na rede pública. "Para os professores de ensino fundamental e médio é mais difícil crescer na profissão. A maioria acaba trocando de escola como forma de ganhar mais, mas continua na sala de aula", aponta.

Entre os professores de ensino superior a tendência é que, com mais especialização e mais tempo de carreira, se voltem para as áreas de pesquisa, com uma redução da carga horária dentro da sala de aula, aponta o diretor de pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) da Ufes, Neyval Costa Reis Júnior.

Facilidade para se formar

Faltam professores, e a maioria dos que existem tem pouca qualificação. Por isso o Ministério da Educação está investindo em quem pretende seguir a carreira docente. Um dos benefícios prevê a possibilidade de fazer uma faculdade particular sem desembolsar nenhum centavo. Uma proposta que deve sair do papel ainda neste ano é que professores e médicos paguem com trabalho o empréstimo feito através do Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies).

Esses educadores devem trabalhar em escolas públicas; e os médicos, no Programa de Saúde da Família. A cada mês trabalhado, 1% da dívida será abatida. A previsão é que, em oito anos, seja possível pagar todo o financiamento. A medida valerá, inclusive, para quem já se formou.

Quem já é professor da rede pública tem mais incentivos: pode concorrer a bolsas do Prouni ou a uma das 7.560 vagas que devem ser oferecidas até 2014 pelo Plano de Formação dos Professores da Educação Básica. No Estado, as vagas serão oferecidas na Ufes e no Ifes, antigo Cefetes.

Compra de computador financiada

Profissionais de todas as redes de ensino têm direito a uma linha de financiamento para comprar equipamentos de informática. O programa "Professor.com Bandes" financia até R$ 3 mil a professores das redes pública e particular que desejam adquirir computadores, acessórios e softwares que estejam relacionados às atividades docentes com juros de 0,8% ao mês. Quem trabalha em escola particular tem mais benefícios: não pagam nada – ou apenas uma parcela – para seus filhos estudarem onde lecionam. Além de ter previdência privada, tíquete-alimentação e até seguro de vida.

Para MEC, só bom aluno pode ensinar

Selecionar melhor quem vai virar professor pode ajudar a melhorar a qualidade da educação. Por isso, o Ministério da Educação quer estabelecer uma nota mínima no Enem para aprovar em cursos de licenciatura. Assim, quem não for bom aluno não vai poder ensinar. Para o secretário estadual de Educação, Haroldo Corrêa, é perigoso estabelecer esse limite. "Sabemos que vão sobrar vagas, pois atualmente a média de quem procura os cursos de licenciatura e Pedagogia são mais baixas", destaca.

Em outros países têm tido sucesso com a atração de talentos. Nos Estados Unidos, o programa Teach For America recruta os melhores alunos para ensinar por dois anos nas escolas públicas. Uma pesquisa feita em 2004 mostrou que os alunos dos professores do Teach for America tiveram um desempenho 10% maior em matemática do que os demais.

Remuneração conhecida com antecedência

Com um histórico recente de pagamentos atrasados e parciais, os professores hoje podem se dar ao luxo de saber o quanto vão receber nos próximos anos. No Instituto Federal do Estado (Ifes), os professores já sabiam, desde maio do ano passado, o quanto iriam receber a partir de fevereiro deste ano. O valor é estipulado por lei. No Estado, quem aderiu ao modelo de remuneração por subsídio sabe, desde o ano passado, que o salário-base – hoje no valor de R$ 1.474,00 – vai passar para R$ 1.583,00 em janeiro de 2010.

Desde 2007, o Ministério da Educação mantém duas ações para elevar gradativamente os salários dos professores e dar uma perspectiva de futuro. Além do aumento da transferência de recursos da União a Estados e municípios com a criação do Fundo da Educação Básica (Fundeb), desde janeiro deste ano, já está em vigor o piso nacional de salários para a educação.

(Fonte: Jornal A Gazeta, 15 de Junho de 2009.)

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